11.1

Mecânica & Teoria

História, anatomia do contrato, margem, formação de preços e Rollover

1. História & Mecânica

⚠️ Para iniciantes: Pule este capítulo. Futures envolvem leverage (tipicamente 10:1 a 20:1), risco de liquidação forçada e roll slippage. Você não precisa deles nos primeiros 6 meses — e provavelmente também não nos primeiros 12. Se você está no caminho de aprendizado: Fase 6 ou posterior. Por enquanto, é melhor continuar com Capítulo: Gerenciamento de Trades ou Capítulo 9.0 Introdução a Opções.

💡 Origens: Osaka, século XVII. Os produtores de arroz enfrentavam um problema: a colheita era plantada meses antes, mas o preço no momento da venda era completamente desconhecido. No mercado de arroz de Dōjima, os comerciantes desenvolveram uma solução — eles acordavam o preço hoje, com entrega três meses depois. Ambos os lados ganhavam segurança no planejamento. Dessa ideia simples nasceram os primeiros contratos a prazo do mundo. O princípio continua idêntico até hoje.

Em 1848, comerciantes de grãos em Chicago fundaram o Chicago Board of Trade (CBOT) — a primeira bolsa de futures moderna. Os agricultores do Midwest podiam agora vender suas colheitas de trigo e milho a um preço fixo antes mesmo de o grão chegar ao silo. Moinhos e comerciantes, por sua vez, sabiam exatamente o que pagariam. O mercado criou liquidez e estabilidade de preços para toda uma economia.

O salto decisivo para a era moderna ocorreu em 1972, quando a Chicago Mercantile Exchange (CME) — por iniciativa do economista Milton Friedman — introduziu pela primeira vez futures financeiros sobre moedas. As empresas podiam hedgear riscos cambiais em bolsa, em vez de negociar bilateralmente com bancos. Futures de taxas de juros vieram alguns anos depois, seguidos pelos de índices de ações. Hoje o mercado global de futures abrange mais de 20 bilhões de contratos negociados por ano sobre tudo, do petróleo bruto ao S&P 500.

O Que É um Future?

Um future é um contrato vinculativo negociado em bolsa que obriga duas partes: uma a comprar, a outra a vender — um ativo subjacente específico, em quantidade fixa, ao preço acordado hoje, numa data futura.

Três características o distinguem dos instrumentos correlatos:

  • Padronizado: O tamanho do contrato, a data de vencimento e as especificações de qualidade são definidos pela bolsa. Sem espaço para negociação, total intercambialidade.
  • Negociado em bolsa: A compra e a venda ocorrem por meio de uma plataforma central de negociação — transparente, baseada em regras, com preços públicos.
  • Obrigação, não direito: Ambos os lados devem cumprir se o contrato for mantido até o vencimento. Isso distingue os futures das opções, em que o comprador tem um direito, mas não uma obrigação.

Distinção de instrumentos similares:

  • Forwards funcionam com o mesmo princípio básico, mas são contratos OTC (Over the Counter) — bilaterais entre duas partes, negociados individualmente, não padronizados. Sem clearing central, portanto com risco de contraparte.
  • Opções conferem ao comprador o direito de comprar ou vender um ativo subjacente — ele pode, mas não precisa. O vendedor (writer) tem a obrigação. Os futures não têm tal assimetria: ambos os lados são obrigados.
  • CFDs (Contratos por Diferença) também são OTC, emitidos por um broker, frequentemente com conflito de interesses. Os futures negociam em bolsas regulamentadas com uma contraparte neutra.

Quem Negocia Futures?

Três grupos compõem os participantes do mercado — e cada um precisa dos outros:

  • Hedgers usam futures para fixar o preço de uma transação do mundo real. Uma empresa petrolífera vende futures de petróleo bruto para garantir a receita de seu próximo lote de produção. Um moinho de grãos compra futures de trigo para fixar os custos de insumos. Para hedgers, um future não é um instrumento especulativo — é um seguro.
  • Speculators absorvem o risco de preço que os hedgers querem descartar. Eles apostam em movimentos direcionais sem nunca querer o ativo físico subjacente. Fundos hedge, Commodity Trading Advisors (CTAs) e traders de varejo ativos pertencem a este grupo. Sem speculators, os hedgers não teriam contrapartes líquidas.
  • Arbitrageurs mantêm a consistência dos preços — entre futures e o mercado spot (basis trading), entre diferentes meses de vencimento (calendar spread) ou entre contratos similares em bolsas diferentes (inter-exchange). Sua atividade garante que as diferenças de preço não persistam.

Por Que os Futures São Atrativos Hoje?

  • Leverage via margin: Os traders depositam apenas uma fração do valor do contrato como garantia (initial margin). Com $5.000 em margin, é possível controlar um contrato ES com valor nocional superior a $200.000. O leverage amplifica ganhos — e perdas.
  • Negociação quase contínua: A maioria dos mercados de futures opera quase 24 horas por dia, 5 dias por semana, com uma breve pausa de aproximadamente 60 minutos por dia. Reações a notícias fora do horário de bolsa podem ocorrer imediatamente.
  • Clearing central sem risco de contraparte: A câmara de compensação da bolsa (ex.: CME Clearing) atua como contraparte de cada contrato. Se um lado inadimplir, a câmara assume. Isso elimina o risco de contraparte presente nos forwards OTC.
  • Transparência de preços: Os preços de oferta e demanda são públicos. Sem spread bid-ask oculto nas sombras — o mercado é igualmente visível para todos.
  • Exposição direta ao mercado: Os futures replicam petróleo bruto, índices ou expectativas de taxas de juros diretamente — sem taxas de administração de ETFs, sem tracking error, sem questões de direito de voto.
📦 Tamanho do Contrato
Definido pela bolsa — ex.: 1.000 barris de petróleo bruto, 50× pontos do S&P 500
🔑 Margin
Deposite apenas capital parcial — tipicamente 2–15% do valor do contrato
📅 Meses de Vencimento
Ciclos de rollover padronizados: março, junho, set., dez. — ou mensais
🏛️ Clearing Central
Câmara de compensação como contraparte — sem risco de contraparte
Não há nada de novo em Wall Street. Não pode haver, porque a especulação é tão velha quanto as colinas. Edwin Lefèvre · "Reminiscences of a Stock Operator" · 1923

🕰️ 300 Anos de Bolsas de Futures — em Seis Marcos

De um contrato de arroz em Osaka aos preços negativos de petróleo em 2020: a longa história dos mercados de futures pode ser contada por meio de seis pontos de virada. Cada um resolveu um problema específico de sua época — e lançou as bases para o que viria a seguir.

  1. 📅 1710 · Osaka
    Mercado de Arroz de Dōjima — a primeira bolsa de futures do mundo
    Produtores de arroz e comerciantes japoneses acordam contratos de entrega padronizados para arroz em 3 e 6 meses. O mercado desenvolve mecânicas de leilão, tick sizes e procedimentos de settlement — séculos à frente do Ocidente.
  2. 📅 1848 · Chicago
    Chicago Board of Trade (CBOT)
    82 comerciantes fundam a primeira bolsa de futures moderna. Trigo, milho e aveia são padronizados — os agricultores podem vender sua colheita antes do plantio. Regras formais de margin seguem em 1865.
  3. 📅 1972 · Chicago
    CME · Primeiros Futures Financeiros
    Após o fim de Bretton Woods, Milton Friedman propõe à CME a introdução de futures de moedas. O International Monetary Market (IMM) é lançado em 16 de maio com sete contratos de moedas. O mundo dos futures se abre além da agricultura.
  4. 📅 1982 · Kansas
    Value Line Index — Primeiro Future de Índice de Ações
    Em 24 de fevereiro de 1982, o Kansas City Board of Trade (KCBT) lista o primeiro future de índice de ações com liquidação em dinheiro. Dois meses depois, a CME segue com o future do S&P 500 — o ancestral do ES atual.
  5. 📅 1992 · CME Globex
    Negociação Eletrônica
    O Globex é lançado como plataforma de negociação eletrônica fora do horário normal. Em 15 anos, a negociação em tela desloca os lendários pregões viva-voz. Em 2015, a CME fecha permanentemente seus últimos pregões de futures.
  6. 📅 20 de abril de 2020
    Petróleo Negativo · Contrato WTI Maio fecha a −$37,63
    No dia anterior ao último dia de negociação do contrato de maio, a demanda colapsa devido aos lockdowns da COVID e os tanques de armazenamento em Cushing (Oklahoma) estão cheios. Pela primeira vez na história, era necessário efetivamente pagar para que o petróleo fosse retirado. Um momento exemplar sobre custos de armazenamento e convergência.

🗺️ O Mapa Deste Capítulo

Quatro partes, 22 seções. Primeiro a mecânica — contrato, margin, rollover. Depois commodities, do petróleo bruto à soja. Em seguida, futures financeiros — índices, taxas, forex, cripto. Por fim, estratégia e tributação DACH.

I · Mecânica
II · Universo de Commodities
III · Futures Financeiros & Prática

2. Anatomia do contrato

Todo contrato de futures tem os mesmos blocos de construção estruturais. Quem os entende pode classificar imediatamente qualquer novo contrato.

29,2 Bn
Contratos / Ano
Volume global de futures & opções em 2023, segundo a FIA — mais do que nunca, impulsionado pela Índia e pela Ásia.
~ 170
Produtos CME
Do Eurodollar aos Lean Hogs. O maior grupo de bolsas de futures do mundo reúne CBOT, CME, NYMEX, COMEX e KCBT.
84
Bolsas de Derivativos
Bolsas de futures e opções listadas no ranking FIA mundialmente — da Chicago Mercantile à National Stock Exchange of India.
300+
Anos de Tradição
Do mercado de arroz de Dōjima (1710) aos crypto futures 24/7 — a mesma ideia central, apenas telas diferentes.
Componente Significado Exemplo ES
Ativo Subjacente O ativo-base Índice S&P 500
Multiplicador Valor por ponto de índice / unidade $50
Tick Size Menor movimento de preço 0,25 pontos de índice
Tick Value Tick Size × Multiplicador $12,50
Mês do Contrato Mês de vencimento ex.: março de 2026
Último Dia de Negociação Último dia de negociação 3ª sexta-feira do mês, 9h30 ET
Tipo de Settlement Como o contrato é liquidado Cash Settlement
Mês de Entrega Somente para entrega física — (Cash-Settled)
Ticker Símbolo + código do mês ESH26 (H=Março)

O código do mês no ticker é padronizado e se aplica a todos os mercados de futures em todo o mundo:

Mês Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez
Código F G H J K M N Q U V X Z

Cash vs. Entrega Física

Como um contrato é liquidado no vencimento determina o risco para o trader de varejo:

  • Cash Settlement: Futures de índice (ES, NQ, DAX), VIX, futures de FX — a diferença entre o preço de entrada e o preço de settlement é liquidada em dinheiro. Nenhuma entrega física é possível.
  • Entrega Física: Commodities (Petróleo Bruto CL, Gás Natural NG), muitos futures de títulos (ZB, ZN), alguns futures agrícolas (trigo, milho, soja) — se mantidos até o mês de entrega, o ativo subjacente é efetivamente entregue. Brokers de varejo normalmente encerram posições automaticamente pouco antes dessa data.
⚠️ Atenção com contratos de entrega física: NÃO mantenha contratos de entrega física até o mês de entrega — caso contrário, petróleo / milho / ouro de verdade serão entregues. Sempre verifique as regras do broker e os prazos de rollover com cuidado e encerre ou faça o roll da posição a tempo.
💡 Meses Seriais vs. Trimestrais: Alguns contratos têm meses seriais (mensais) além dos trimestrais (ex.: Gold GC tem fev/abr/jun/ago/out/dez como meses ativos). Sempre verifique a especificação da CME para ver qual mês é líquido — open interest baixo significa piores execuções e maior slippage.

3. Mecânica de margem

💡 Quem precisa de $10.000 em capital para manter $10.000 em ações controla, com os mesmos $10.000 em futures, frequentemente $150.000–$300.000 em valor de contrato. Isso é leverage — e pode arruinar você mais rápido do que você tem tempo de sair da cama.

A regra mais importante do trading é jogar uma ótima defesa, não um ótimo ataque. Paul Tudor Jones · Entrevista com Tony Robbins · 2014
Arquivo · 1995 Em 26 de fevereiro de 1995, o Barings Bank, com 233 anos de história, faliu. Seu trader-chefe de 28 anos na filial de Cingapura, Nick Leeson, havia acumulado ao longo de meses posições em futures Nikkei 225 na SIMEX e ocultado as perdas em uma conta secreta ("88888"). O terremoto de Kobe, em 17 de janeiro, derrubou o Nikkei a 17.000 pontos — Leeson comprou contra a queda, e as margin calls explodiram. Saldo final: £827 milhões em perdas, aproximadamente o dobro do patrimônio do Barings. O banco foi vendido ao ING por £1. Lição: o margin de futures não é teoria — ele é recalculado diariamente e cobrado sem piedade. Quem "cobre" perdas em vez de aceitá-las acabará provocando seu próprio colapso.

Initial Margin

O initial margin é a garantia mínima que você deve depositar ao abrir uma posição. Tipicamente 3–10% do valor do contrato — dependendo da volatilidade do ativo subjacente e da política do broker. Exemplo E-Mini S&P 500 (ES): valor do contrato aprox. $250.000 (5.000 × multiplicador $50), initial margin aprox. $12.000 → leverage ≈ 20×. A câmara de compensação (CME) define as taxas mínimas; os brokers podem exigir valores mais altos — nunca menores.

Maintenance Margin

O maintenance margin é o valor mínimo que deve permanecer na conta durante toda a vigência de uma posição aberta — tipicamente 80–90% do initial margin. Se o patrimônio da conta cair abaixo desse limite, por qualquer motivo, uma margin call é acionada. Não eventualmente: imediatamente. O broker notifica você e espera que você complete a conta até pelo menos o nível do initial margin — no mesmo dia de negociação.

Variation Margin (Mark-to-Market)

Os futures são avaliados diariamente pelo preço de settlement — isso se chama mark-to-market. Os lucros são creditados na conta, as perdas são debitadas. Todo dia de negociação, automaticamente. Essa é a diferença fundamental em relação às ações: se você perde $1.000, esses $1.000 são imediatamente reais e desaparecem — não é uma perda contábil que talvez se recupere algum dia. A perda é dinheiro, esta noite. Quem não internalizar isso terá surpresas desagradáveis no extrato da conta.

Sistema SPAN

Standard Portfolio Analysis of Risk (SPAN) é o sistema de cálculo de margin da CME e de muitas outras bolsas. O SPAN calcula o risco não no nível de posição individual, mas no nível do portfólio — leva em conta spreads, correlações entre commodities e posições de compensação. Na prática, isso significa: quem mantém um calendar spread ou um inter-commodity spread (ex.: long petróleo bruto / short heating oil) paga margin significativamente reduzido — frequentemente um desconto de 70–90% em comparação com as posições individuais. O SPAN reconhece que as posições se hedgeiam parcialmente e define o margin correspondentemente mais baixo.

Portfolio Margin vs. Strategy Margin

Nos EUA, contas acima de $100.000 podem solicitar portfolio margin — uma alternativa regulatória ao cálculo padrão Reg-T. O portfolio margin avalia o risco geral do portfólio em cenários de stress (como o SPAN) em vez de posição por posição. Isso tipicamente leva a requisitos de margin significativamente menores para portfólios diversificados com hedges.

Comparação Detalhada — no Cap. 9 · Estratégias de Opções Reg-Tvs.Portfolio Margin REG-T Fórmula · Posição isolada a partir de $0 · toda conta nos EUA PORTFOLIO MARGIN Risco por cenário · todo o portfólio a partir de $100k · IBKR · Tastytrade · Schwab Abrir comparação com cards, estratégias de exemplo & lógica SPAN

Na Europa, a ESMA impõe limites mais rígidos: traders de varejo estão sujeitos ao strategy margin com limites de leverage (ex.: 1:30 para principais pares de moedas, 1:20 para principais índices de ações, 1:10 para commodities exceto ouro, 1:5 para ações individuais). Contas institucionais e traders profissionais (por solicitação) estão isentos.

Margin Call & Liquidação Forçada

Se o patrimônio da conta cair abaixo do maintenance margin, o broker sinaliza isso — por telefone, e-mail ou notificação automática no sistema. O prazo é curto: tipicamente o mesmo dia de negociação. Se nenhum capital for adicionado, o broker encerra posições automaticamente — e não necessariamente as piores ou maiores. Ele encerra aquelas que são mais líquidas no momento da liquidação forçada. Isso pode significar que hedges lucrativos sejam encerrados enquanto posições perdedoras permanecem abertas — até que a conta esteja equilibrada.

⚠️ Risco de gap noturno: Uma das propriedades mais perigosas dos futures é que o maintenance margin pode ser violado em uma única noite sem oportunidade de reação. Exemplo famoso: WTI Crude Oil em 20 de abril de 2020 — o preço caiu para −$37 por barril (preços negativos!). Muitas contas de varejo foram liquidadas à força durante a noite; algumas deixaram dívidas com o broker porque o patrimônio da conta ficou negativo. A proteção de margin não significa que você não pode perder mais do que seu capital — significa apenas que o broker tenta estancar o sangramento cedo.

4. Formação de preços

Por que o future de março do S&P 500 custa mais do que o valor spot atual do S&P 500? Por que o contrato de dezembro do WTI negocia acima do preço Brent atual? A resposta reside em um único conceito: cost of carry — a soma de todos os custos e receitas que surgem se você comprasse fisicamente o ativo subjacente e o mantivesse até o vencimento do future.

Arquivo · 1930 John Maynard Keynes formulou em A Treatise on Money a teoria da Normal Backwardation: hedgers (produtores) vendem sua futura colheita a prazo e pagam implicitamente um prêmio de risco aos speculators que assumem o movimento de preços. Nessa visão, os preços dos futures deveriam sistematicamente ficar abaixo do preço spot esperado. Gorton & Rouwenhorst confirmaram em 2006 em "Facts and Fantasies about Commodity Futures" (Financial Analysts Journal) com 45 anos de dados: os futures de commodities historicamente entregaram um prêmio de risco de aproximadamente 5% a.a. acima dos T-bills — exatamente o que Keynes havia previsto.

Fórmula do Valor Justo

F = S × (1 + r × t) − D
  • F = Preço do future (valor justo teórico)
  • S = Preço spot do ativo subjacente (preço à vista atual)
  • r = Taxa de juros livre de risco (anualizada, ex.: taxa do T-bill de 3 meses)
  • t = Tempo até o vencimento em anos (ex.: 3 meses = 0,25)
  • D = Dividendos ou rendimentos esperados até o vencimento (para futures de índice)

Componentes do Cost of Carry

  • Juros (carry positivo, aumenta o preço do future): Comprar e manter o ativo subjacente imobiliza capital. Esse capital deve ser compensado — o future deve, portanto, ser mais caro do que o spot para compensar esse custo de oportunidade.
  • Custos de armazenamento (carry positivo, para commodities): Aluguel de tanques, taxas de silo, transporte, seguro — tudo isso custa dinheiro. Para commodities físicas como petróleo bruto, gás natural ou milho, esses custos aumentam significativamente o valor justo do future.
  • Convenience yield (carry negativo, para commodities escassas): A vantagem de possuir fisicamente a commodity hoje — porque ela é escassa ou necessária imediatamente. Uma refinaria com petróleo bruto em mãos pode reagir imediatamente a escassez de oferta; um future não pode. Um alto convenience yield empurra o preço dos futures abaixo do preço spot (backwardation).
  • Dividendos (carry negativo, para futures de índice): Um future de índice não paga dividendos, enquanto o índice spot (conceitualmente) os paga. Os dividendos esperados são deduzidos do valor justo — eles reduzem o preço dos futures em relação ao spot.

Exemplo de Cálculo ES

Premissas: S&P 500 spot = 5.000, taxa livre de risco r = 5% a.a., tempo até vencimento t = 3 meses = 0,25 anos, dividendos esperados = 12,50 pontos de índice.

F = 5.000 × (1 + 0,05 × 0,25) − 12,50
F = 5.000 × 1,0125 − 12,50
F = 5.062,50 − 12,50
F = 5.050

O future de março deveria, portanto, negociar a 5.050 pontos. Se negociar mais alto, está caro em relação ao seu valor justo (arbitragem: comprar spot, vender future a descoberto). Se negociar mais baixo, está barato (arbitragem: vender spot a descoberto, comprar future).

Basis

Basis = Spot − Future. O sinal diz muito:

  • Basis negativo (Spot < Future): Normal — o future é mais caro porque os juros e os custos de armazenamento dominam. Chamado de Contango.
  • Basis positivo (Spot > Future): Backwardation — o spot é mais caro. Surge de um alto convenience yield (escassez) ou quando o mercado espera preços em queda.

O basis está ligado ao cost of carry e à dinâmica de oferta e demanda. À medida que o tempo restante até o vencimento diminui, ele se reduz a zero: no último dia de negociação, F deve ser igual a S.

Convergência

À medida que o tempo restante t diminui, t → 0, assim r × t → 0 e o valor justo F converge em direção ao spot S. Isso não é acidental — é aplicado pela arbitragem: se no último dia de negociação F ≠ S, os arbitrageurs poderiam imediatamente comprar o lado barato e vender o lado caro e coletar a diferença sem risco no settlement (que é calculado diretamente a partir do preço spot). Essa oportunidade é eliminada imediatamente em mercados líquidos.

Contango (normal para commodities com custos de armazenamento):
  Preço dos futures
    │      ╱─── Back-Month (mais caro)
    │    ╱
    │  ╱─ Front-Month
    │╱
    └───────────── Tempo
  → Posição long perde no rolling.

Backwardation (escassez, roll yield positivo):
  Preço dos futures
    │╲
    │ ╲── Front-Month (mais caro)
    │   ╲
    │     ╲── Back-Month (mais barato)
    └───────────── Tempo
  → Posição long ganha no rolling.
💡 Arbitrageurs como guardiões do mercado: Os arbitrageurs garantem que a fórmula do valor justo raramente seja massivamente violada em contratos líquidos. Se você vê um desvio significativo, geralmente há um relatório ou um evento no horizonte que outros já estão precificando — não um erro de cálculo na fórmula.

5. Rollover em detalhe

Todo future expira. Se você quiser manter a posição por mais tempo do que o contrato ativo dura, deve fazer o rollover: encerrar o contrato que está vencendo e abrir o próximo. Custos reais surgem nesse processo — custos que são invisíveis para muitos traders de varejo.

Nunca foi meu pensamento que me rendeu o grande dinheiro. Foi sempre a minha espera. Jesse Livermore · via Reminiscences of a Stock Operator · 1923

Front-Month vs. Back-Month

Front-Month é o contrato ativo e mais líquido — tipicamente o mês de vencimento mais próximo. Back-Month refere-se a contratos mais distantes com volume e open interest geralmente menores. A liquidez migra aproximadamente 8 dias úteis antes do vencimento do front-month para o próximo contrato — reconhecível por um súbito aumento de volume no back-month e uma queda no front-month.

Sinais de Roll

Dois indicadores-chave mostram quando o ponto de roll foi atingido:

  • Mudança de volume: Quando o volume no próximo contrato supera o volume do front-month — o mercado efetivamente migrou para o novo mês.
  • Mudança de open interest: Quando o open interest no próximo mês é maior do que no front-month — grandes participantes (instituições, CTAs) já fizeram o roll.

Roll Yield

Em contango (future mais caro do que o spot), uma posição long perde no rollover: você encerra o contrato que está vencendo mais barato (à medida que converge em direção ao spot) e abre o próximo mais caro. Esse efeito é chamado de roll yield negativo — ele corrói os retornos sem nenhum movimento no ativo subjacente. Em backwardation, o cenário se inverte: você encerra mais caro, abre mais barato → roll yield positivo, um vento favorável estrutural para a posição long.

USO — A Lição Mais Cara em Rollover

O USO (United States Oil Fund) replica o petróleo bruto WTI por meio de futures de front-month. Isso soa simples — e para milhões de investidores de varejo nos anos 2010 foi uma lição muito cara. O petróleo WTI estava em contango estável: o front-month negociava em torno de $50, o mês seguinte a $52. Toda vez que o USO fazia o roll, vendia o contrato mais barato e comprava o mais caro — uma perda estrutural de aproximadamente 4% por roll. Com 12 rolls por ano, esses custos acumulavam um roll drag de ~48% a.a. Enquanto o preço spot do WTI se movia lateralmente por 10 anos, o USO perdeu mais de 80% do seu valor — não porque o petróleo ficou mais barato, mas porque o rollover em contango destruiu sistematicamente capital. Em abril de 2020, quando os futures WTI caíram brevemente para −$37 por barril, o USO foi forçado a fazer o roll para meses mais distantes em pânico, perdendo outros aproximadamente 30% em relação ao spot. O USO não é um caso extremo — é o exemplo textbook do que acontece quando os custos de roll são ignorados.

Estratégias de Roll

  • Calendar Roll (padrão): Encerre o front-month 8 dias úteis antes do vencimento e abra o back-month — siga a janela de roll institucional, onde a liquidez é maior.
  • Roll otimizado: Faça o roll alguns dias antes da janela padrão, antes que o spread bid-ask se alargue devido à atividade de roll concentrada de muitos participantes do mercado.
  • Ordem de spread (calendar spread): Envie ambas as pernas simultaneamente como uma única ordem de spread — ex.: "Vender ESH26 / Comprar ESM26". Isso reduz significativamente o slippage, pois o diferencial (o spread) é negociado em vez de dois preços separados. Execução mais líquida, menor risco de execução.
Contrato Janela de Roll Frequência
ES, NQ, YM (Índice de Ações) 8 dias úteis antes da 3ª sexta-feira do mês Trimestral (H M U Z)
CL (Petróleo WTI) Dia 25 do mês anterior Mensal
GC (Ouro) Dia 28 do mês anterior Meses principais Fev/Abr/Jun/Ago/Out/Dez
ZC (Milho) 2 semanas antes do vencimento Mar/Mai/Jul/Set/Dez
ZN (T-Note 10A) 1º dia útil do mês de vencimento Trimestral